Após insistência ucraniana, Lula e Zelensky terão 1º encontro nesta quarta (20)

Iniciativa do encontro, que acontece a partir das 17h (de Brasília), partiu do lado ucraniano

REUTERS/Adriano Machado - Georgi Paleykov/Getty Images Após insistência ucraniana, Lula e Zelensky terão 1º encontro nesta quarta (20) Zelensky pretende apresentar a Lula os detalhes da guerra no momento e também mais dados sobre seu plano de paz

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se reunirá, nesta quarta-feira (20), a partir das 17h (de Brasília), com o líder ucraniano Volodymyr Zelensky, em Nova York, em meio à Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).


A iniciativa do encontro partiu do lado ucraniano. A CNN apurou com as autoridades do país europeu que o pedido foi feito formalmente pela Embaixada da Ucrânia em Brasília há duas semanas. O Itamaraty confirmou à reportagem a informação.


Na última terça-feira (19), Lula afirmou não ter expectativas no compromisso: “Às 16h (horário local), vou receber o Zelensky para conversar sobre os problemas que ele quer conversar comigo”.


“Eu não tenho expectativa. A expectativa é de uma conversa de dois presidentes de países. Cada um com seus problemas, cada um com as suas visões”, prosseguiu.


Zelensky pretende apresentar a Lula os detalhes da guerra no momento e também mais dados sobre seu plano de paz – que inclui pontos como a criação de um tribunal especial para julgar crimes por parte do lado russo, a retirada imediata de tropas do Kremlin de território ucraniano e o pagamento de indenização pela Rússia pela destruição no país vizinho.


Os russos já indicaram que não aceitam esses termos e apostam num longo conflito, na esperança de negociar a paz no futuro controlando parte do território da Ucrânia.


Lula e Zelensky nunca se encontraram presencialmente para uma reunião bilateral. Houve tentativas de conciliar as agendas, sem sucesso, em maio, durante a cúpula do G7, no Japão.


Em entrevista coletiva, Lula afirmou que Zelensky não apareceu para encontro bilateral com ele na cidade de Hiroshima.


“Nós tínhamos uma entrevista [sic] bilateral com a Ucrânia às 3 horas da tarde [horário local]. Nós tínhamos a informação de que eles tinham atrasado, enquanto isso, atendi o presidente do Vietnã. Quando o presidente do Vietnã foi embora, a Ucrânia não apareceu. Certamente, teve outro compromisso e não pode vir aqui. Foi simplesmente isso que aconteceu”, disse o presidente brasileiro.


Na cúpula, Zelensky sinalizou que, de fato, houve uma incompatibilidade de agendas, como sustentou o governo brasileiro.


Ao ser questionado se ficou desapontado pelo fato de a reunião não ter acontecido, Zelensky respondeu: “Eu acho que ele que ficou decepcionado”.


Os ucranianos já disseram várias vezes que querem conversar com Lula para mostrar ao líder brasileiro “a realidade do conflito”.


Kiev também já demonstrou diversas vezes sua insatisfação com o presidente brasileiro por suas declarações polêmicas sobre a guerra —incluindo uma afirmação de que os Estados Unidos e os países europeus estavam prolongando a guerra ao enviar armamentos para a resistência ucraniana.


O novo embaixador da Ucrânia em Brasília, Andrij Melnyk, disse à CNN que o seu governo reconhece “o papel de liderança que o Brasil está disposto a desempenhar no cenário internacional ao assumir mais responsabilidades para restabelecer uma ordem global”. E acrescentou: “Brasília tem todos os pré-requisitos necessários para ter sucesso”.


Essas foram as declarações mais positivas vindas do governo ucraniano em relação ao Brasil nos últimos meses.


Perguntado sobre a importância do encontro, o embaixador Melnyk declarou que a reunião é muito importante e que os ucranianos esperam “que o Brasil possa contribuir significativamente para pôr fim à invasão militar russa por meios diplomáticos, implementando a fórmula de paz do presidente Zelensky”.


“Acredito firmemente que este primeiro encontro pessoal dos dois líderes será um verdadeiro avanço para as nossas relações bilaterais que renovarão uma verdadeira parceria estratégica entre a Ucrânia e o Brasil estabelecida em 2009”, explicou.


“Estou convencido de que o presidente Zelensky e o presidente Lula enviarão um impulso poderoso para reiniciar uma aliança natural entre Kiev e Brasília e preenchê-la com novos projetos mutuamente benéficos”, prosseguiu.


Entre esses projetos, ele destacou que o Brasil pode desempenhar um papel importante na reconstrução da economia da Ucrânia “depois que esta guerra brutal do Kremlin terminar”.


Antes do encontro com Zelensky, Lula estará com o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden.


Serão levados pelo chefe do Executivo brasileiro para a reunião os presidentes das principais centrais sindicais brasileiras.


Segundo auxiliares do presidente da República e presidentes de centrais sindicais ouvidos pela CNN, o grupo deve tratar com Biden de temas relacionados ao “trabalho decente”.


Na terça-feira (19), Lula disse ter expectativa pelo encontro com Biden. “É a primeira vez em 523 anos da existência do Brasil que você senta com o presidente norte-americano em igualdade de condições para discutir um problema crônico, que é a questão da precarização do mundo do trabalho. Que vale para os jornalistas, para o trabalhador comum de uma fábrica”, disse Lula.


“Então, nós vamos tentar ver se apontamos para a sociedade e, sobretudo para a juventude, uma alternativa. O que a gente pode fazer para que desperte na juventude a esperança de que ele vai ter garantia de estudar e com esse estudo vai ter um emprego que lhe permita viver dignamente. Se a gente conseguir isso já valeu a pena”, finalizou.


*Com informações de Américo Martins e Pedro Venceslau