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Júri condena dois acusados de atacar judeus em 2005

23/03/2019 às 07h08
Por: Tribuna Popular
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Três réus foram condenados por júri pelo ataque a um grupo de judeusno bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, em 2005. O julgamento popular de Leandro Comaru Jachetti, Marcelo Moraes Cecílio e Daniel Vieira Sperk foi concluído na madrugada deste sábado (23) em Porto Alegre.






Daniel Vieira Sperk e Leandro Comaru Jachetti foram considerados culpados. A pena para cada um, aplicada pela Juíza Cristiane Zardo, é de 14 anos de reclusão em regime inicial fechado. Eles poderão recorrer em liberdade.





No caso de Marcelo Moraes Cecílio, houve desclassificação do crime, que passou a ser o de lesão corporal leve. Como já prescreveu, a juíza deu por extinta a punibilidade.





Eles foram apontados pelo Ministério Público como os responsáveis por espancar e esfaquear uma das vítimas do ataque que aconteceu há 14 anos. O crime aconteceu na frente de um bar, na Capital. Um grupo de neonazistas agrediu três jovens judeus, identificados pelo quipá, o chapéu judaico. Um deles ficou internado por semanas no hospital.





O julgamento havia sido cancelado em novembro do ano passado, depois dos jurados manifestarem interesse em ouvir uma nova testemunha do caso – um homem que chegou a ser acusado dos crimes, mas foi excluído do processo. Segundo a denúncia, eles foram responsáveis por espancar e esfaquear uma das vítimas do ataque que aconteceu há 14 anos.





Ao todo, nove pessoas foram acusadas do crime. O processo sofreu uma cisão, e em setembro de 2018, três homens foram condenados. Apenas um está preso.







Vítimas







Professora e amiga das vítimas chorou ao lembrar o fato — Foto: Léo Saballa Júnior/RBS TV

Professora e amiga das vítimas chorou ao lembrar o fato — Foto: Léo Saballa Júnior/RBS TV






O júri teve início nesta quinta-feira (21), com depoimentos das vítimas do crime, testemunhas de acusação e de defesa), e interrogatório de um dos réus. Por volta das 9h30, foi feito o sorteio dos jurados e a sessão foi iniciada com o depoimento das vítimas. Alan Floyd Gisztejn narrou o ataque.





"Saí correndo logo que fui agredido. Fugi do bar. Fiquei na Rua Sofia Veloso. Respirei um pouco. No que eu voltei, vi o Rodrigo sendo agredido. Só não sabia que ele estava sendo esfaqueado", relembrou.





Ele contou no júri também que ficou com medo de uma nova agressão, e que só voltou a usar o quipá durante uma viagem a Israel.





A segunda vítima, Rodrigo Fontella, passou por situação parecida, conforme seu depoimento. "Depois deste fato eu fiquei paranoico, com medo de sair (...) Hoje eu só quero que tenha justiça", disse.







Testemunhas





Terminados os depoimentos das vítimas, foram ouvidas as testemunhas de acusação. Um médico que ajudou os agredidos informou ao júri que os réus seguiram espancando mesmo sem reação.




Outra testemunha, uma advogada e professora que também presenciou o crime, descreveu as roupas dos acusados. "Eu estava no bar, eles estavam todos caracterizados. Não existe um judeu no mundo que não reconheça um skinhead", disse.





A sessão teve uma pausa, e retornou por volta das 20h para o interrogatório das testemunhas de defesa. Um professor de artes marciais, que deu aula para Leandro Comaru Jachetti, foi convocado pelos advogados dele para prestar seus esclarecimentos.





A companheira de Jachetti e um familiar de Marcelo Moraes Cecílio também falou pela defesa.







Réus







Réu Leandro é interrogado no júri sobre ataque a judeus em 2005 — Foto: TJ-RS/Divulgação

Réu Leandro é interrogado no júri sobre ataque a judeus em 2005 — Foto: TJ-RS/Divulgação






Ainda na noite de quinta, foi interrogado o réu Marcelo Moraes Cecílio. Nos primeiros instantes, ele confirmou que esteve no bar, para o aniversário de conhecidos. Relatou que foi ao banheiro e, quando saiu, o lugar já estava vazio, e que não chegou a ver a briga.





Cecílio também disse não ter preconceito, e negou ter sido skinhead. Ao ser confrontado pela promotora, lembrando que ele disse ser skinhead em depoimento anterior, ele negou ter feito a afirmação. O júri foi encerrado por volta das 22h45.





Os outros dois réus foram interrogados na manhã de sexta-feira. Daniel Vieira Sperk disse ter sido punk, e não skinhead, e afirmou já ter sido agredido por neonazistas antes da noite do crime.





"Sou totalmente inocente. Eu sempre lutei contra o nazismo. Há 14 anos as pessoas me chamam de nazista. Eu nunca fui violento. Eu nunca tive passagem na polícia. Me tiraram para bode expiatório", disse.





Leandro Comaru Jachetti também negou participação. "Quando começou a briga foi um empurra-empurra. Eu me defendi para não ser agredido. É uma defesa", afirmou.







Debate




Após os interrogatórios, o julgamento entrou na etapa de debate, em que a acusação e as defesas apresentam as sustentações aos jurados. "O Israel e o Socó passaram a espancar o Rodrigo. Israel chegou a dar 'tiro de meta' no Rodrigo. Este no desespero tenta esconder sua cabeça embaixo de um carro. Aí que surge outro e puxa ele", descreveu o promotor Luiz Eduardo de Oliveira Azevedo.





Depois, foi a vez da promotora Lúcia Helena Callegari se manifestar. Ela contestou a alegação dos réus, de que seriam inocentes, afirmando que eles têm tatuagens alusivas ao movimento skinhead. "Vejam as tatuagens deles. Muito fácil chegar aqui e dizer: 'eu não tenho nada a ver'", enfatiza.





Depois do Ministério Público, foi a vez do assistente de acusação João Batista Costa Saraiva falar. Ele abordou o medo que os agredidos continuaram sentindo depois do crime. "O quipá, por exemplo, o Alan nunca mais conseguiu usar. Já viram isso? O quipá fala da sua alma, fala do seu Deus. E ele passou a não usar mais", destacou.





Após um intervalo de cerca de 30 minutos, as defesas passaram a se manifestar. O advogado Jacques Xavier Nunes, que representa os réus Daniel Sperk e Leandro Jachetti, chamou de "encenação" o depoimento de uma das testemunhas de acusação, e considerou que o trabalho dos jurados foi dificultado pela acusação. "Você não receberam ajuda de quem formulou a denúncia", afirmou.





O advogado pediu que os jurados declarem a inocência dos réus ou participação de menor importância, por não haver provas de que Sperk e Jachetti tenham cometido o crime.





O advogado Rodrigo Rosa de Lima, que representa Marcelo Moraes Cecílio, reconhece que o réu estava no local no momento do crime, mas nega a participação. Ele também criticou a formulação da denúncia. "Equívoco é a palavra mais usada nesse processo", disse.


*G1




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