Estado Intocáveis
MPE ignora teto de salários e paga “prêmio da mega” por ano a procuradores de MS
Apenas um procurador de Justiça ganhou R$ 2,6 milhões no ano passado entre salários, gratificações e penduricalhos, segundo o Portal da Transparência do MPE
09/02/2026 08h35
Por: Tribuna Popular Fonte: O Jacaré
Conselho Superior do Ministério Público de Mato Grosso do Sul para o biênio 2025/2026. (Foto: MPMS)

Enquanto milhares de trabalhadores ‘fazem uma fezinha’ no sonho e esperança de sair do perrengue financeiro, membros do Ministério Público de Mato Grosso do Sul “ganham” na mega-sena todo ano. 

Os supersalários pagos a promotores e procuradores do Estado ultrapassam e muito o teto do STF (Supremo Tribunal Federal), somando facilmente mais de R$ 1 milhão por ano e quando adicionados os penduricalhos, passam de R$ 2 milhões. O MPE também descumpre leis federais ao omitir os nomes dos agraciados com tantos benefícios financeiros, em seu Portal da Transparência.

Um dos casos analisados pelo O Jacaré é do responsável pela 6ª Procuradoria de Justiça Criminal, que segundo o site do MPMS é o procurador de Justiça, Antônio Siufi Neto. Em 2025 recebeu R$ 1,676 milhão só em salários, somados os penduricalhos de auxílio transporte, alimentação e outros, o procurador recebeu R$ 2,6 milhões em um ano.

Considerando que o Bolsa Família paga média de R$ 600 para cada família por mês, o que um único procurador recebeu no ano, sustentaria mais de 300 famílias que vivem em vulnerabilidade social por um ano.

Agora se considerar a renda média do sul-mato-grossense que é de R$ 3,4 mil por mês, um trabalhador “comum” levaria 65 anos de esforço diário para acumular o valor pago em único ano ao procurador de Mato Grosso do Sul, ou seja, uma vida inteira de trabalho. O salários do Ministério Público deveria ser de R$ 46,3 mil, mas a realidade é que o órgão usa dos chamados ‘penduricalhos’ para inflar os pagamentos a mais que o dobro do teto.

Conforme dados do Portal da Transparência do MPMS, a tabela de salários mensais dos membros é composta por oito rendimentos e 14 benefícios, sendo:

Vamos pegar o caso do procurador Antônio Siufi Neto. O salário base dele é R$ 41.845,48, que somados por 12 meses, deveria ser de R$ 502 mil, com gratificação natalina chegaria a R$ 543,9 mil. Mas a realidade é que o membro do MPMS recebeu em 2025, quatro vezes mais do que deveria, graças ao pagamento dos penduricalhos. Por três meses no ano, ele teve o maior salário entre os 233 membros.

Acompanhe o salário dele mês a mês:

Para a Transparência Brasil, a manutenção desse modelo de remuneração vai na direção oposta ao interesse público. “Esse dinheiro deveria estar sendo investido para tornar a justiça mais célere, acessível e efetiva”, afirma o coordenador de projetos, Cristiano Pavini. Segundo ele, os recursos consumidos pelos supersalários poderiam financiar a contratação de novos servidores e membros, a modernização de sistemas, além de capacitação e melhorias estruturais.

“O que se vê, no entanto, é o direcionamento do orçamento para o enriquecimento dos próprios membros das instituições”, conclui ele, ao destacar que o pagamento de verbas indenizatórias e retroativas não é exceção entre Ministérios Públicos e o Judiciário.

“Exceção é quem não recebe acima do teto. A Constituição prevê que indenizações não sejam computadas, mas Judiciário e Ministério Público banalizaram esse instrumento, criando uma série de penduricalhos justamente para driblar o limite e inflar remunerações”, explica o representante do Transparência Brasil.

Mais de um milhão por ano

O responsável pela 6ª Procuradoria de Justiça Criminal, procurador Antônio Siufi Neto, não é isolado. Ao analisar os dados presentes na Transparência do MPMS, é fácil chegar a valores acima de R$ 1 milhão ao ano de salário bruto.

Se atentando aos ganhos mensais é possível ver que facilmente o salários dos procuradores e promotores ultrapassa os R$ 100 mil. O Jacaré cruzou os cargos com os nomes que os ocupam para entregar a transparência que o Ministério Público omite e separou mais cinco nomes para provar que os ganhos milionários são generalizados.

Salários de janeiro a dezembro de 2025
Penduricalhos de janeiro a dezembro de 2025

12ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, Rodrigo Yshida Brandão – R$ 1.311.066,36 de salário bruto em 2025, mais R$ 714,4 mil de penduricalhos, somando R$ 2.025.479,25 de ganhos totais no ano passado.

1ª Promotoria de Justiça de Caarapó, Fernanda Rottili Dias – R$ 1.075.272,25 de salário bruto, mais R$ 476.382,78 de penduricalhos, que somam R$ 1.551.658,03 em 2025.

63ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, Ricardo Benito Crepaldi – R$ 1.305.860,89 de salário bruto, mais R$ 716.292,29 de penduricalhos, que somam R$ 2.022.153,18 recebidos em 2025.

69ª Promotoria de Justiça de Campo Grande, Marcos Alex Vera de Oliveira – R$ 1.340.566,32 de salário bruto, somado a R$ 774.278,72 de penduricalhos que chegam a R$ 2.114.845,04 em 2025.

1ª Promotoria de Justiça de Ponta Porã, Gabriel da Costa Rodrigues Alves – R$ 1.087.667,50 de salário bruto, somado a R$ 586.130,89 de penduricalhos, somando R$ 1.673.789,39 em 2025.

Supersalários em dezembro

Reportagem do O Jacaré, mostrou que em dezembro de 2025, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul pagou supersalários de R$ 302 mil a R$ 351 mil a 17 promotores e procuradores de Justiça. Em dezembro de 2025, foram pagos R$ 37,8 milhões em salários aos seus 234 membros, compostos por promotores e procuradores, fora outros R$ 17 milhões nos chamados ‘penduricalhos’, compostos por auxílios (alimentação, transporte, moradia, licenças e outros).

Em dezembro, o procurador de Justiça da 21ª Procuradoria de Justiça, teve rendimento bruto de R$ 351,7 mil, sendo R$ 232,2 mil em remuneração e R$ 119,5 mil em ‘penduricalhos’. Os dados da transparência mostram que o salário mensal do procurador é de R$ 41,8 mil. Mas, em dezembro, ele recebeu também R$ 57,8 mil em gratificação natalina, R$ 12,9 mil de abono permanência, R$ 104, 8 mil de outras remunerações retroativas e R$ 14,6 mil verbas indenizatórias, somando salário bruto de R$ 232,2 mil total bruto.

MPMS descumpre lei e não divulga nomes no Portal da Transparência

Apesar de ser um órgão defensor do interesse público, o Ministério Público de Mato Grosso do Sul descumpre leis federais ao ocultar o nomes dos servidores e seus respectivos salários no Portal da Transparência. O órgão divulga apenas os valores pagos para caga cargo ocupado.

No Brasil, órgãos públicos de qualquer instância, são obrigados a divulgar o nome, cargo e salário de seus servidores de maneira transparente. O que determina a obrigação, são as leis da Transparência, de 2009, e de Acesso à Informação, de 2011.

Além disso, o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) de que é constitucional divulgar, em portal público, o nome de servidores e suas remunerações existe desde 2015. Nessa decisão, o STF concluiu de forma unânime que essa divulgação é legítima e não fere os direitos à intimidade ou à privacidade, pois se trata de informação de interesse coletivo e de controle da administração pública.

Dessa forma, o MPÉ descumpre duas leis federais e o entendimento do STF, ao omitir o nome dos membro e servidores na relação de salários publicada.