O chefão do PCC (Primeiro Comando da Capital), Gerson Palermo, conhecido como ‘Velho’ e ‘Germano’, de 68 anos, teria ordenado o sequestro da própria filha após o sumiço de 100 mil dólares. O dinheiro havia sido entregue por ele ao ex-sogro em 2015.
A jovem, de 25 anos, foi sequestrada e torturada em Campo Grande, em outubro do ano passado. Ela foi resgatada por policiais civis do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros) no dia 25 daquele mês.
Gerson Palermo, de 68 anos, e Reinaldo Silva de Farias, de 35 anos, foram denunciados pelo MPMS (Ministério Público de Mato Grosso do Sul). Reinaldo foi preso na época do crime, mas teve a prisão revogada e passou a ser monitorado por tornozeleira eletrônica. Palermo — condenado a mais de 100 anos de prisão — está foragido desde abril de 2020.
Atualmente, Reinaldo está proibido de se aproximar da vítima e seus familiares, devendo manter distância mínima de 300 metros.
Em janeiro deste ano, a juiza de Direito, Eucelia Moreira Cassal, da 3ª Vara Criminal, autorizou que a jovem sequestrada e o marido dela atuem como assistentes de acusação no processo. Na próxima terça-feira (17), será realizada uma audiência de instrução e julgamento do caso.
As investigações revelaram que a motivação do crime teria sido uma entrega de U$ 100 mil dólares feita por Palermo ao ex-sogro. Ele teria ordenado o idoso a esconder o dinheiro em um cano de PVC. Assim, o ex-sogro, pedreiro à época, teria cavado o piso para guardar o cano e os dólares teriam permanecido no local por aproximadamente dez anos.
O sumiço do dinheiro veio à tona em maio do ano passado, quando Gerson entrou em contato com o ex-sogro exigindo os dólares de volta. O idoso teria retornado ao imóvel, onde atualmente mora a neta — filha de Palermo —, mas ao remover o cano não encontrou o dinheiro.
Ao informar o ex-genro sobre o desaparecimento dos U$ 100 mil dólares, Palermo teria planejado o sequestro da filha para extorquir o valor do idoso, da jovem e do marido dela.
Segundo a denúncia do MPMS, a jovem foi mantida em cárcere privado na Moreninha IV enquanto Reinaldo agia conforme determinação de Palermo, privando a liberdade da filha dele sob violência e ameaças. Na época, o Jornal Midiamax noticiou que a jovem foi torturada e que o pai dela havia mandado que os autores cortassem a orelha e a língua da vítima.
A denúncia aponta que Gerson entrou em contato com a filha naquele 24 de outubro e alegou que estava enviando uma pessoa para entregar a ela um dinheiro. O valor seria destinado ao custeio de cuidados com a saúde da avó da jovem.
Assim, a mando de Palermo, um terceiro envolvido entrou em contato com a jovem via telefone e orientou a encontrá-lo em um carro, de cor branca, estacionado na Rua 14 de Julho. Ao chegar até o veículo, dois homens armados renderam a jovem, anunciaram o sequestro e disseram que estavam no local para receber 200 mil euros que Palermo lhes devia.
No caminho até o cativeiro na região das Moreninhas, os criminosos obrigaram a jovem a ficar de cabeça baixa, enquanto a agrediam. Eles forçaram a arma contra a nuca, boca e a cintura da vítima, além de exigir várias vezes que a jovem revelasse a localização do dinheiro do pai.
A jovem também teve o Iphone 16 e o MacBook roubado pelos criminosos, sendo que um deles queria jogar o celular pela janela. O comparsa interviu e afirmou que o ‘Velho’ havia ordenado que os pertences fossem devolvidos em local específico.
Ainda no dia 24 de outubro, por volta das 18h30, Reinaldo ligou para o marido da jovem, afirmou que a esposa dele havia sido sequestrada e exigiu falar com o avô materno dela. Na ligação, Reinaldo ameaçou a vida da vítima e demais parentes, exigindo a entrega do dinheiro que, segundo ele, era de Palermo.
Pouco mais de uma hora depois, Reinaldo mandou uma foto da jovem ao marido dela e depois apagou a mensagem. Na imagem, que o marido conseguiu fotografar antes da exclusão, a jovem estava amarrada no chão do cativeiro.
Já às 21h43, Reinaldo enviou um áudio da jovem ao marido dela, despedindo-se e afirmando que seria o último áudio que ele ouviria da esposa. Em seguida, Palermo ligou para o genro e pediu para falar com o avô materno da filha.
Na ligação, o avô foi ameaçado pelo Palermo, que afirmou saber que o mesmo estava com uma quantia volumosa em dinheiro dele. Ele exigiu que o dinheiro fosse devolvido imediatamente e, caso não fosse devolvido, mataria a jovem. Em seguida, mataria o marido dela.
Após ser resgatada, a jovem, seu avô materno e o marido dela negaram a posse de qualquer dinheiro. O trio disse que não sabia o destino do dinheiro mencionado por Gerson e seus comparsas.
Horas depois, os sequestradores colocaram a jovem em um carro com uma bolsa sobre a cabeça. Por volta das 23h, deixaram a vítima em uma área desabitada no bairro Moreninhas. Contudo, no trajeto, os criminosos ameaçaram “terminar o serviço” e matar a jovem e o marido dela, caso acionasse a polícia.
Ao ser orientada a dizer que teria sido assaltada, a vítima conseguiu um celular para avisar o marido sobre o local onde estava. No dia seguinte, a jovem pediu ao pai que o celular e seu computador portátil fossem devolvidos, pois caso contrário, iria acionar a polícia.
Assim, Gerson também teria entrado em contato com a mãe da jovem para combinar a forma como os pertences seriam devolvidos. Ela indicou um açougue próximo de casa como local de entrega. O celular e o computador portátil foram devolvidos através de um motoentregador.
Equipes do Garras (Delegacia Especializada de Repressão a Roubos a Bancos, Assaltos e Sequestros) monitoraram a jovem até o açougue e, quando o motoentregador chegou, os policiais o abordaram.
O “chefão” do PCC está foragido desde abril de 2020. Ele foi condenado a mais de 100 anos de prisão e se beneficiou com prisão domiciliar. Na época, o narcotraficante passou a usar tornozeleira eletrônica, em razão de integrar supostamente o grupo de risco da covid, e rompeu a tornozeleira.
Ele estava na casa da esposa quando fugiu, por volta das 20h40, quebrando a tornozeleira eletrônica que auxiliava no monitoramento. Naquela época, a suspeita era de que o narcotraficante teria ido para a Bolívia, já que teria uma casa em Corumbá.