Ex-prefeito de Campo Grande, Alcides Bernal disse em depoimento gravado na terça-feira (24), logo após atirar e matar o fiscal de renda estadual Roberto Carlos Mazzini, de 61 anos, que tem porte e registro da arma usada no crime. Confessou, também, que teria ganhado a arma após ser prefeito e ‘perseguir o sistema.
“Essa arma foi adquirida em 2013. Inclusive, foi um presente que me deram lá. Porque eu sofri, fui prefeito de Campo Grande. Enfrentei o sistema. E o sistema é… como diria o Capitão Nascimento: o sistema é difícil. Ele usou outra palavra, mas em respeito a senhora…”, declarou, em referência ao filme nacional Tropa de Elite, estrelado por Wagner Moura.
Bernal disse ter usado a arma outras vezes apenas para dar tiros no teste para obter o porte. No mesmo depoimento, o ex-prefeito alega que o tiro era para ser dado apenas na perna do servidor estadual.
Mazzini foi assassinado com dois tiros, sendo uma nas costas e outro no abdômen, em uma casa na Rua Antônio Maria Coelho, no Centro de Campo Grande. Postura que, segundo fontes policiais ouvidas pelo Jornal Midiamax, não corroboram com a alegação de legítima defesa de Bernal.
A casa pertencia ao ex-prefeito, mas, por falta de pagamentos, foi leiloada e arrematada pelo fiscal de renda em 2025 pelo valor de R$ 2,4 milhões.
Alcides Bernal foi preso em flagrante após se apresentar na delegacia e encaminhado ao PME (Presídio Militar Estadual). A polícia pediu que o ex-prefeito seja mantido em prisão preventiva.
Em depoimento, o chaveiro contou que recebeu mensagem do filho na segunda-feira (23) sobre um serviço a ser realizado em um imóvel na Rua Antônio Maria Coelho. Na ocasião, ele explicou que Roberto teria contratado o serviço após ter adquirido a residência em leilão e precisava de um chaveiro para a abertura do imóvel.
Por volta das 13h de terça (24), o chaveiro recebeu uma ligação do fiscal tributário dizendo que já estava na residência aguardando a chegada dele. Logo, o chaveiro chegou, disse que abriu o portão social e foi, juntamente com a vítima, até a porta principal da residência.
Na porta principal, enquanto o chaveiro tentava abrir a porta, Alcides Bernal teria surgido, mas a testemunha não o reconheceu. Neste momento, o chaveiro e a vítima ficaram na varanda.
Segundo o registro policial, o chaveiro relatou que Bernal, portando uma arma de fogo, se aproximou pelo portão social e já apontou em direção ao fiscal tributário. “O que você está fazendo aqui na minha casa, seu filho da p***” teria dito o ex-prefeito.
Diante da situação, a testemunha disse que olhou para Bernal e a vítima estava ao seu lado. Ele afirmou aos policiais que Roberto não teve tempo de responder e sequer explicar o que estava fazendo no imóvel, pois o suspeito já atirou em direção à vítima, que caiu ao chão.
Em seguida, Bernal teria se virado para a testemunha, que afirmou ser “apenas o chaveiro”, pois estava no imóvel porque Roberto pediu que abrisse a porta. Logo, o ex-prefeito teria mandado o chaveiro se deitar de bruços.
O chaveiro ficou com medo e presenciou o ex-prefeito se dirigindo ao servidor estadual novamente apontando a arma para ele. “Tudo foi muito rápido”, relatou a testemunha.
Segundo o depoimento do chaveiro, o ex-prefeito teria proferido várias ameaças e mencionado que iria efetuar novos disparos. Diante disso, a testemunha se levantou — enquanto Bernal teria ficado vidrado em Roberto — alcançou o portão e saiu do local.
À polícia, o chaveiro disse que pensou que Bernal poderia atentar contra ele, especialmente por ter mandado se deitar de bruços. Por isso, deixou o imóvel e, após alcançar uma distância segura, ele entrou em contato com o filho e pediu que acionasse a polícia.
Por fim, o chaveiro disse que não observou Bernal saindo da casa, pois estava abalado emocionalmente e ficou afastado. Aproximadamente 20 minutos depois, ele viu o Corpo de Bombeiros e a PM (Polícia Militar) chegando ao local.
Em vídeos preliminares juntados aos autos, conforme registro policial, deu para ver que Bernal chegou e entrou ao imóvel portando a arma de fogo.
Conforme informações, houve uma discussão na garagem, momento em que Bernal sacou um revólver calibre .38 e efetuou dois disparos contra a vítima, que teriam atingido o abdômen e as costas. Testemunha, o chaveiro que estava ao lado de Roberto disse que a vítima nem ao menos teve tempo de reagir ou se defender. O Corpo de Bombeiros chegou a ser acionado, porém, Roberto morreu no local.
O ex-prefeito então se apresentou na Primeira Delegacia, dizendo que tinham invadido a casa dele e acreditava estar sendo perseguido. Os policiais civis então foram até a casa e encontraram Roberto sendo atendido pelos Bombeiros, porém, ele morreu no local. Bernal então foi preso em flagrante e, arma utilizada, com três munições intactas e duas deflagradas, foi apreendida.
Conforme o advogado Wilton Edgar Acosta, o ex-prefeito possui porte de arma e agiu em legitime defesa. “Ele já prestou depoimento e os esclarecimentos, alegando legítima defesa. Ele [Bernal] foi alertado pela empresa de segurança sobre os fatos e foi até a residência, onde a porta da residência estava sendo arrombada. A legítima é o argumento mais forte neste momento. A versão dele é esta: ele foi agredido e ameaçado e, por conta disso ele teve que reagir para se defender”, detalhou.