No saguão Nelly Martins, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul (ALEMS), a arte respira, atravessa e provoca. A exposição “Amarras”, do artista português Santiago Belacqua, inaugurada nesta quinta-feira (26), constrói uma ponte sensível entre continentes, reunindo artistas de Mato Grosso do Sul em um diálogo profundo sobre existência, natureza e pertencimento.
A abertura reuniu autoridades, artistas, acadêmicos do curso de Artes Visuais da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), além de apreciadores da cultura, em um ambiente onde cada obra sussurra histórias, tanto ancestrais quanto urgentes.
Inspirada pela participação de Belacqua na Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), realizada em Campo Grande, a exposição traz à tona uma reflexão estética e ambiental. Em suas obras, o artista apresenta animais migratórios e símbolos do Pantanal envoltos em cordas, como metáforas visuais de um mundo em tensão.
“Trouxe maioritariamente espécies migratórias e também outras do Pantanal, como a arara-azul, a onça e o cavalo pantaneiro. Todos amarrados, para tentar sensibilizar que isso nunca aconteça”, explicou o artista, ao destacar a interdependência entre o mundo humano e o natural.
Com trajetória consolidada na arte sacra contemporânea e reconhecimento internacional , incluindo exposições no Vaticano, Belacqua também refletiu sobre o acolhimento recebido no Estado. “O acolhimento em Campo Grande foi extraordinário. Parece que sou uma coisa do outro mundo, mas não sou. Todos nós pisamos o mesmo chão”, disse.
Diálogo entre territórios
Ao lado do artista português, nomes sul-mato-grossenses ampliam a narrativa da exposição: Patricia Helney, Fernando Anghinoni, Marco Oliveira Pinto, Erika Rando, Ana Maria Rabacow, Alan Vilar e Lúcia Monte Serrat. Juntos, constroem uma linguagem plural, onde o local e o global se entrelaçam.
Para a artista Patricia Helney, a mostra representa um intercâmbio de sentidos. “É um grande prazer participar, porque é um intercâmbio Brasil-Portugal. Nós, artistas da terra, também trouxemos nossas dificuldades, seja da natureza ou da devastação. O artista é um contador de histórias, é quem vai mostrar, lá na frente, o que aconteceu no nosso tempo”, afirmou.
Idealizada em parceria com a Academia Feminina de Letras e Artes de Mato Grosso do Sul (AFLAMS) e o PEN Clube do Brasil – Centro-Oeste, a exposição também carrega histórias de encontros e sonhos compartilhados.
A curadora Delasnieve Daspet relembrou que a presença de Belacqua no Estado é fruto de um vínculo construído anos atrás. “Conheci o artista em 2020, no Memorial da América Latina. Ali nasceu o sonho desta exposição, que hoje dividimos com Mato Grosso do Sul, com o Brasil e com o mundo”, destacou.
Ela também ressaltou a importância de abrir espaços institucionais para a cultura. “A abertura da Assembleia à arte representa um momento ímpar. Quem sabe essa iniciativa não leve nossos artistas a outros países?”, projetou.
Reconhecimento e valorização
Durante a solenidade, o artista Santiago Belacqua foi homenageado com o título de Visitante Ilustre da ALEMS, em reconhecimento à sua contribuição artística e à troca cultural promovida com o Estado.
A deputada Mara Caseiro (PSDB), 3ª vice-presidente da ALEMS, destacou a relevância do momento. “Estamos celebrando a arte sul-mato-grossense com uma visita ilustre. Ele é um artista renomado, que expôs no Vaticano, e vem unir suas experiências com aquilo que temos de mais rico aqui, que é a nossa cultura e o nosso Pantanal”, afirmou.
Já o deputado Professor Rinaldo Modesto (Podemos), presidente da Comissão de Educação, Cultura e Desporto, reforçou o papel da arte na construção social. “Um estado que não preserva a sua arte e a sua história está fadado a ter problemas. Quando trazemos uma mostra dessa magnitude, estamos ajudando a construir um estado com um olhar diferente”, pontuou.
Os dois parlamentares propuseram a realização do evento na ALEMS. Também estiveram presentes na cerimônia o presidente da Casa, deputado Gerson Claro (PP); o 1º vice-presidente, Renato Câmara (MDB); além do deputado Caravina (PSDB).
Arte que ecoa em múltiplas linguagens
A abertura foi marcada ainda pela apresentação do Coral da ALEMS, sob regência do maestro Nillo Cunha. As canções apresentadas deram o tom de acolhimento e emoção, ampliando a experiência estética para além do olhar.
Entre notas e pinceladas, a exposição “Amarras” se revela como mais do que uma mostra: é um território de encontros. Um espaço onde diferentes vozes se conectam para lembrar que a arte, mesmo quando denuncia, também acolhe.
Mín. 20° Máx. 35°