Empresas brasileiras estão transferindo parte de suas operações produtivas para outros países. O movimento vai além da exportação: envolve a instalação de fábricas, centros de distribuição e cadeias de produção completas em territórios com menor carga tributária e maior previsibilidade regulatória. Países como Paraguai e Estados Unidos figuram entre os destinos escolhidos. Dados do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) mostram que o saldo da balança comercial brasileira em 2025 foi de US$ 68,3 bilhões, mas o resultado foi sustentado por commodities e petróleo. A participação da indústria de transformação no Produto Interno Bruto (PIB) caiu de 13,6% em 2013 para 10,8% em 2024, segundo cálculos do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) com base nas Contas Nacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Confederação Nacional da Indústria (CNI) projeta crescimento de apenas 0,5% para o setor em 2026.
O cenário reflete décadas de perda de competitividade industrial. A carga tributária brasileira, que, segundo o FGV IBRE, consome parcela significativa do faturamento das empresas, soma-se à legislação trabalhista rígida e à insegurança jurídica. Em paralelo, a política tarifária dos Estados Unidos, que completou um ano em abril de 2026, redesenhou as condições de acesso ao mercado americano. Levantamento da plataforma Global Trade Alert (GTA) aponta que a tarifa média sobre produtos brasileiros nos EUA caiu de 26,33% para 12,77% após revisão judicial da Suprema Corte americana, e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) calcula que 46% das exportações brasileiras para os EUA ficaram isentas no novo regime.
Custo Brasil empurra operações para o exterior
Para Sandro Christovam Bearare, engenheiro com pós-graduação em logística, gestão empresarial e engenharia de produção, pesquisador e autor de diversos artigos científicos, entre eles um estudo publicado no Brazilian Journal of Animal and Environmental Research sobre diversificação de cadeias de suprimentos, a migração produtiva não é resposta a barreiras externas. A causa está no ambiente de negócios brasileiro. "Quem opera só no Brasil enfrenta tributo, burocracia e rigidez trabalhista que corroem a margem. Pluralizar receita em outros países virou sobrevivência", observa.
O Paraguai concentra hoje mais de 300 empresas no regime de Maquila, sendo cerca de 70% de origem brasileira, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio do país vizinho. O regime de Maquila, instituído pela Lei 1.064/1997, permite a importação de matéria-prima com isenção tributária e cobra imposto de apenas 1% sobre o valor agregado local, desde que a produção seja destinada à exportação. A tarifa de energia elétrica industrial no Paraguai é de US$ 51 por megawatt-hora (MWh), contra US$ 125 no Brasil, segundo dados da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE) do Paraguai. Setores como têxtil, calçados e acessórios figuram entre os que transferiram total ou parcialmente suas linhas de montagem para território paraguaio.
Estados Unidos atraem com estabilidade e mercado consumidor
Os Estados Unidos representam outro polo de atração. Com segurança jurídica, infraestrutura logística consolidada e acesso direto a um mercado de mais de 330 milhões de consumidores, o país mantém uma estratégia ativa de captação de investimentos estrangeiros. A Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, acionada pelo governo americano em fevereiro de 2026, fixou tarifa global de 10% com validade até 24 de julho de 2026. Para empresas que instalam produção em solo americano, a tarifa de importação deixa de ser variável, pois o produto já é fabricado dentro do país.
Em seu estudo publicado no Brazilian Journal of Animal and Environmental Research, com base em dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), do Banco Mundial e de consultorias como McKinsey e DHL, Bearare propõe um modelo de quatro pilares para empresas que precisam operar em mais de um país: distribuir a produção em regiões diferentes, ter mais de um fornecedor para cada insumo, usar rotas e meios de transporte variados e manter estrutura de armazenagem em locais distintos. "O custo de produzir no Brasil obriga o empresário a buscar eficiência constante. O problema é que estamos próximos do limite e ainda distantes de uma estabilidade entre produção e retorno", afirma.
Migração produtiva tende a se manter nos próximos anos
A FGV IBRE projeta crescimento de 0,5% no volume do comércio global de mercadorias em 2026, uma queda de 1,9 ponto em relação ao ano anterior. A retração reflete o peso das tensões comerciais entre grandes economias. Para empresas brasileiras que já operam em múltiplas jurisdições, o ambiente global turbulento reforça a decisão de manter produção distribuída. Para as que ainda concentram toda a operação no Brasil, o cenário pressiona a busca por alternativas em países que ofereçam menor carga tributária, contratos de trabalho flexíveis e acesso a mercados consumidores de grande porte.
Sandro Christovam Bearare possui diversos artigos científicos publicados nas áreas de logística internacional, gestão estratégica e resiliência produtiva, disponíveis em sua plataforma Ludus Vision.