A escassez de talentos segue como um dos principais desafios para empresas no mundo e no Brasil. Em 2026, 72% dos empregadores globalmente afirmam ter dificuldade para preencher vagas, segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos do ManpowerGroup. Embora o índice represente leve queda em relação ao ano anterior, quando era de 74%, o estudo indica que o fenômeno permanece disseminado e assume novas características, impulsionado principalmente pela crescente demanda por competências relacionadas à inteligência artificial (IA).
Pela primeira vez desde o início da série, habilidades ligadas à inteligência artificial passaram a liderar o ranking das competências mais difíceis de encontrar no mercado global. O levantamento ouviu mais de 39 mil empregadores em 41 países e mostra que capacidades como desenvolvimento de modelos e aplicações de IA (20%) e letramento em inteligência artificial (19%) superaram áreas tradicionais como engenharia (19%) e vendas e marketing (18%). O movimento sinaliza uma mudança estrutural na forma como empresas definem suas prioridades de contratação.
No Brasil, o cenário segue ainda mais pressionado. Cerca de 80% das empresas relatam dificuldade para encontrar profissionais com as competências necessárias, percentual acima da média global e praticamente estável nos últimos quatro anos. A persistência do indicador em patamar elevado reforça que o desafio deixou de ser conjuntural e passou a integrar a dinâmica estrutural do mercado de trabalho brasileiro.
Para Nilson Pereira, CEO do ManpowerGroup Brasil, a evolução tecnológica acelerou a transformação das competências exigidas pelas organizações. "A escassez de talentos reflete um descompasso entre a velocidade das mudanças tecnológicas e a formação de profissionais com essas habilidades. Não se trata apenas de encontrar especialistas em novas tecnologias, mas de desenvolver capacidades que permitam aplicar essas ferramentas de forma estratégica nas empresas", afirma.
O avanço da inteligência artificial é um dos fatores que mais contribuem para essa reconfiguração do mercado de trabalho. À medida que as empresas incorporam soluções baseadas em IA em seus processos, cresce a necessidade de profissionais capazes de desenvolver, implementar e operar essas tecnologias. Esse movimento ocorre simultaneamente à queda relativa na demanda por habilidades tradicionais de tecnologia da informação e análise de dados, que passaram a ocupar posições mais baixas no ranking global de escassez.
Apesar do avanço das competências técnicas relacionadas à tecnologia, o levantamento mostra que habilidades humanas continuam sendo altamente valorizadas pelas organizações. Comunicação, colaboração e trabalho em equipe aparecem como as competências mais buscadas globalmente, citadas por 39% dos empregadores. Em seguida, aparecem profissionalismo e ética de trabalho (36%), além de adaptabilidade e disposição para aprender (34%).
Segundo Pereira, esse equilíbrio entre competências técnicas e comportamentais tende a se tornar cada vez mais relevante no contexto da transformação digital. "O domínio tecnológico é importante, mas as empresas também precisam de profissionais capazes de colaborar, aprender continuamente e tomar decisões em ambientes de mudança constante", diz.
A intensidade da escassez de talentos varia significativamente entre países. Na Europa, por exemplo, a Alemanha registra um dos índices mais elevados, com 83% dos empregadores relatando dificuldades para contratar. França e Reino Unido também apresentam níveis elevados, com 74% e 73%, respectivamente. Já nos Estados Unidos, o indicador fica em 69%, ligeiramente abaixo da média global. Entre as grandes economias analisadas, a China apresenta o menor nível de escassez, com 48% das empresas relatando dificuldade para preencher vagas.
O fenômeno também atravessa diferentes setores da economia. Globalmente, a indústria de informação lidera o ranking de escassez, com 75% das empresas enfrentando dificuldades de contratação. Na sequência aparecem hospitalidade (74%) e serviços públicos, saúde e assistência social (74%). Setores como manufatura, serviços profissionais e financeiros também registram índices elevados, indicando que o problema não se restringe a um único segmento econômico.
No Brasil, a escassez se distribui de forma relativamente homogênea entre os setores, mas alguns segmentos apresentam níveis ainda mais elevados. Serviços profissionais, científicos e técnicos lideram com 85%, seguidos pelo setor de informação, com 83%. Outras áreas, como comércio, logística, hospitalidade e manufatura, também registram índices próximos de 79%, demonstrando que a dificuldade de contratação é generalizada.
Outro fator que influencia a intensidade do problema é o porte das organizações. Globalmente, empresas com até dez funcionários registram 64% de dificuldade para contratar. O índice cresce conforme o tamanho da organização aumenta, atingindo 75% nas empresas com mil a quase cinco mil colaboradores. No Brasil, esse padrão se repete com intensidade ainda maior: entre empresas desse mesmo porte, até 90% relatam dificuldades para encontrar profissionais.
Diante desse cenário, empresas têm adotado diferentes estratégias para lidar com a escassez de talentos. Globalmente, o investimento em capacitação interna aparece como a principal medida, citado por 27% das organizações. Também ganham espaço iniciativas relacionadas à flexibilidade de jornada (20%), flexibilidade de localização do trabalho (18%), aumento de salários (19%) e ampliação de fontes de recrutamento.
No Brasil, o desenvolvimento interno de profissionais tem peso ainda maior. Cerca de 44% das empresas apontam programas de requalificação e aprimoramento de habilidades como a principal estratégia para enfrentar a escassez, percentual significativamente superior ao observado no cenário global. A tendência indica que organizações têm buscado reduzir a dependência do mercado externo de talentos e investir mais na formação de suas próprias equipes.
Para Pereira, essa mudança de abordagem tende a ganhar força nos próximos anos. "A competição por profissionais continuará intensa. Por isso, as empresas que avançarem na formação contínua de suas equipes e na criação de ambientes de aprendizagem terão maior capacidade de adaptação às transformações do mercado de trabalho", comenta.
A pesquisa sugere que a escassez de talentos deve permanecer como um elemento estruturante da economia global no médio prazo. O avanço da digitalização, as mudanças demográficas e a evolução das competências exigidas pelas organizações apontam para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo na disputa por profissionais com determinadas habilidades.
"Diante desse cenário, as empresas tendem a ampliar estratégias integradas de atração, desenvolvimento e retenção de talentos. Mais do que responder à escassez no curto prazo, o desafio é construir capacidades internas que permitam acompanhar a velocidade das transformações tecnológicas e organizacionais", conclui Nilson Pereira.