
Com dois terços da obra concluídos, não é mais possível descartar tudo o que já foi feito para colocar de pé a usina nuclear de Angra 3. No entanto, a justificativa financeira para sua construção passou de duvidosa para quase inaceitável. Depois de pronta – o novo prazo é 2026 – sua energia será quatro vezes mais cara do que a de uma usina eólica. E mesmo se comparada com suas irmãs mais velhas, Angra 1 e 2, sua eletricidade custará o dobro.
A Eletronuclear, subsidiária da Eletrobras, tenta encontrar um financiador para terminar o empreendimento. No entanto, já ouviram dos interessados que, com o preço atual das tarifas designadas para a usina, em torno de 240 reais por megawatt-hora (MWh), o investimento é inviável. Por isso, a empresa pleiteia junto aos órgãos que controlam o setor elétrico a elevação da tarifa para mais de 400 reais por MWh.
Atualmente, os projetos de usinas eólicas preveem um custo de geração em torno de 100 reais por MWh. Angra 1 e 2, outras nucleares, possuem a mesma tarifa que hoje está aprovada para Angra 3, de 240 reais.
Segundo um executivo do alto-escalão da Eletronuclear, a busca por investidores estrangeiros é uma alternativa a todos os “nãos” recebidos pela estatal ao tentar financiamento dentro do Brasil. Devido às denúncias de corrupção, Angra 3 foi embargada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e teve de excluir as construtoras responsáveis pelas obras. Na quarta-feira, 22, o TCU liberou a retomada das obras.
Angra 3 envolveu-se em um dos principais escândalos de corrupção no setor elétrico. Othon Silva, ex-presidente da Eletronuclear, em julho de 2015, foi preso. Em agosto de 2016, ele, que também é vice-almirante da Marinha, foi condenado a 43 anos de prisão. Segundo a denúncia do Ministério Público, Silva pediu propina às construtoras Andrade Gutierrez e Engevix, responsáveis pela construção. Aos 79 anos, ele está recorrendo em liberdade.
“Se Angra 3 estivesse sendo concebida agora, seria muito difícil encontrar a justificativa financeira”, afirma Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE). Atualmente, 67% das obras foram executadas. Na visão de Pires, não há mais a possibilidade de voltar atrás. “É uma usina no meio do caminho. Não dá mais para ignorar o investimento que foi feito. Então, é preciso um estudo muito cuidadoso para encontrar uma viabilidade financeira que não prejudique o país”, diz.
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