
A Psicomeet, plataforma brasileira de telessaúde voltada ao cuidado de crianças e famílias, passou a disponibilizar gratuitamente o conjunto de ferramentas de apoio ao desenvolvimento e à inclusão de estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e outros transtornos do neurodesenvolvimento. A plataforma foi desenvolvida pela Meridian AI Labs, holding de tecnologia fundada por Márcio Estevam.
A medida ocorre em um cenário de expansão acelerada da demanda. O Censo 2022 do IBGE, cujos resultados sobre o tema foram divulgados em maio de 2025, identificou 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil, o equivalente a 1,2% da população residente. Foi a primeira vez que a pesquisa censitária brasileira investigou o diagnóstico de TEA. Nos Estados Unidos, levantamento divulgado em 2025 pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) apontou prevalência de 1 em cada 31 crianças de 8 anos.
"Considerando o público neurodivergente como um todo, incluindo também pessoas com TDAH e dislexia, estima-se que de 15% a 20% da população se enquadre. É para essa população, além de suas famílias, professores e escolas, que as ferramentas passam a ser oferecidas gratuitamente", afirma Estevam.
Matrícula cresce mais rápido que o apoio especializado
Os dados educacionais ajudam a dimensionar a lacuna. Segundo o Censo Escolar da Educação Básica 2024, divulgado pelo Inep, as matrículas na educação especial chegaram a 2,1 milhões, crescimento de 58,7% em relação a 2020. As matrículas de estudantes com TEA passaram de 636.202 para 918.877 entre 2023 e 2024, alta de 44,4% em um único ano. Na faixa de 4 a 17 anos, 95,7% dessas matrículas estão em classes comuns de escolas regulares.
A oferta de suporte, no entanto, avança em ritmo distinto. Entre as 145,3 mil escolas com matrícula do público-alvo da educação especial, 43,1 mil ofereciam Atendimento Educacional Especializado (AEE) em 2024 — cerca de uma em cada três. Na prática, a adaptação do material didático recai sobre o professor da sala comum.
"Adaptar conteúdo para trinta alunos, um por um, toda semana, é onde o professor desiste. Não por falta de vontade, mas por falta de hora no dia", avalia o fundador da Meridian AI Labs.
Como a adaptação é feita
O ponto de partida do sistema não é o diagnóstico, mas um perfil funcional composto por 15 dimensões — entre elas a leitura, escrita, atenção sustentada, autonomia na tarefa, comunicação expressiva e regulação —, descritas em termos de comportamento observável e preenchidas pelo professor, pela família e pelo profissional de saúde.
A partir desse perfil e do ano escolar da turma, a plataforma calcula a distância entre a habilidade prevista para o ano escolar e o repertório do estudante, definindo um grau de adaptação que varia do mesmo conteúdo com mais tempo e apoio visual até a substituição do objetivo por um degrau anterior da mesma linha de progressão curricular. A base reúne 1.580 habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) com código oficial e 215 linhas de progressão.
Segundo a empresa, essa etapa é determinística — a mesma entrada produz sempre a mesma saída, com justificativa auditável —, e a inteligência artificial generativa atua somente na redação dos passos da atividade. O mesmo mecanismo é aplicado às avaliações: a prova da turma é processada e devolvida na versão correspondente ao grau de adaptação do estudante, procedimento que responde a uma obrigação prevista na legislação de educação inclusiva.
A plataforma gera ainda os documentos exigidos pela rotina escolar, como o Plano Educacional Individualizado (PEI), o Plano de Desenvolvimento Individual (PDI), o Relatório Circunstanciado e o Plano de Atendimento Educacional Especializado (PAEE).
Interesse restrito como recurso pedagógico
Entre os recursos, a plataforma incorpora ao perfil do estudante o registro de seus interesses restritos, uma característica comum no TEA, que passa a orientar tanto o texto das atividades quanto as ilustrações geradas para cada passo.
A estratégia tem respaldo na literatura científica. Metanálise publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders por Dunst, Trivette e Hamby avaliou estudos que incorporaram os interesses de crianças pequenas com TEA a práticas de intervenção precoce e identificou efeitos positivos sobre engajamento e aprendizagem. Revisão sistemática publicada em 2018 no periódico Research in Autism Spectrum Disorders analisou o uso de interesses circunscritos em intervenções para pessoas no espectro e apontou resultados favoráveis em desfechos acadêmicos e sociais.
"Agrupar objetos de dois em dois com tampinhas ou com dinossauros é, no papel, a mesma habilidade da BNCC. Para uma criança que fala de dinossauro há dois anos, não é a mesma atividade. Não se trata de enfeite, mas do que determina se a tarefa vai acontecer ou não", explica Estevam.
Outra definição técnica citada pela empresa diz respeito ao tratamento de dados: na geração das ilustrações, o nome do estudante é substituído por uma expressão genérica antes de qualquer chamada a serviço externo, de modo que o dado identificável não circule para fornecedores de inteligência artificial. A plataforma declara conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
Custo de manutenção e permanência da gratuidade
Estevam afirma que a sustentação financeira do acesso aberto é incerta e que a empresa busca parcerias com instituições, patrocinadores e poder público para custeá-lo. Segundo ele, os usuários cadastrados durante o período de liberação manterão o acesso sem custo, independentemente de mudanças futuras no modelo da plataforma.
"Não há como assegurar que a porta ficará aberta indefinidamente, porque servidor, inteligência artificial e suporte têm custo elevado. O compromisso assumido é com quem entrar agora: quem se cadastrar enquanto o acesso estiver gratuito permanecerá com acesso gratuito."
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