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Cientistas buscam remédios na fauna pantaneira

09/06/2016 às 08h14
Por: Tribuna Popular
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No perigoso veneno das arraias e serpentes do Pantanal sul-mato-grossenses há componentes que podem servir à fabricação de antibióticos de grande proveito para a humanidade. Por isso, cerca de 220 pesquisadores estão debruçados em estudos com a participação de todas as instituições de ensino superior do Estado,num projeto enorme e de alcance mundial. Além do veneno - alvo mais recente das pesquisas - também é estudada a flora pantaneira.

Folhas, sementes, raízes e galhos são dissecados pelos pesquisadores em busca de matéria prima para novos fármacos. "O que fazemos é pegar a informação na natureza e transformar em algo utilizável para a humanidade. Isso é bioinspiração", explica o professor doutor em bioquímica Octávio Luiz Franco da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), em Campo Grande, cujos laboratórios estão movimentados com as  experiências feitas por docentes e acadêmicos que examinam as substâncias. "Nosso foco agora é produzir antibióticos que possam ser utilizados na veterinária. Queremos antibióticos para vacas, cavalos, frangos e suínos", detalha.

O projeto cujo nome oficial é Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Produtos Bioinspirados une as universidades locais, 14 instituições de outros estados brasileiros, a Embrapa, e pesquisadores de 18 países. Sem a necessidade de um espaço físico comum, cada instituição pode fazer as experiências com os compostos naturais do Pantanal nos seus próprios laboratórios. Todo conhecimento gerado é compartilhado posteriormente.

A experiência com venenos tem sido reveladora aos pesquisadores a ponto de surgirem descobertas inesperadas no meio do caminho. No veneno da arraia, que é rico em proteínas, os estudiosos encontraram oito compostos que funcionam bem como anticoagulante. Esse não é o foco da pesquisa, que está em busca de antibióticos, mas o achado poderá render outras linhas de trabalho para os cientistas.  Vale mencionar que o temido animal não deixou a desejar no quesito principal. No veneno da arraia, há sim componentes que podem servir à fabricação de antibióticos e não só para animais, mas para humanos também, foco de outro grupo de estudiosos dentro do projeto.

Vale mencionar que para ser pesquisada, a arraia não precisa ser sacrificada. Os pesquisadores retiram o ferrão do animal (dentro dele está a glândula do veneno) usando um alicate. Em questão de um mês, o ferrão cresce novamente. No caso das serpentes, o acesso à matéria prima é ainda mais fácil. O biotério da UCDB dispõe de um serpentário com cerca de 600 cobras. Há exemplares das serpentes com os venenos mais letais da fauna pantaneira. Basta o laboratório solicitar.

No que diz respeito à flora do Pantanal, estão em estudo Jatobá, Jenipapo, Cajuzinho do Cerrado,  Sucupira Branca e outros. "Sempre gostei da ideia de trabalhar com produtos naturais. Fazendo os experimentos com sintéticos, desenvolvidos só no computador, você chega num limite de criatividade. Mas, a natureza não tem limite. A chance de encontrar algo totalmente inovador na natureza é muito superior à criatividade humana", afirma. Dentro desse projeto, a ciência tem se servido do conhecimento popular como um dos pontos de partida. "O conhecimento popular é bruto, mas por vezes pode ter certo fundo de verdade.

É isso que investigamos. É uma estratégia de busca que não pode ser desprezada", explica. "Por exemplo, houve casos em que o conhecimento popular indicava que o chá de uma determinada planta era eficiente para infecção na garganta. A pesquisa científica confirmou que a planta, de fato, tinha componentes que funcionavam para a infecção. Porém, às vezes se descobre que a planta poderia fazer mal."

Ciência custa caro - Apesar de todo conhecimento já acumulado, os testes ainda não saíram dos laboratórios da UCDB. A burocracia e os altos custos para o avanço da ciência emperram os passos seguintes da experiência. O professor conta que já descobriu polipeptídeos que estão há mais de 15 anos esperando para serem testados em humanos. O processo é extremamente custoso. Até chegar aos humanos, o teste precisa ser feito em ratos (fase já feita na UCDB) e depois em cachorros. "O custo da experiência total pode chegar aos 60 milhões de dólares." E, mesmo aprovado em todas as fases clínicas, nada garante que o experimento vá chegar ao mercado.

Na UCDB, os pesquisadores começam os testes de eficiência dos componentes por meio das placas com colônias de bactérias, para depois utilizarem ratos e camundongos como cobaias. Os animais são infectados para depois receberem os antibióticos. "A maneira mais visível é na placa. Aqui é possível ver o comportamento das bactérias na presença do antibiótico. Quando ele funciona, a placa fica assim, limpa, sem nenhuma bolinha", diz mostrando a placa após a experiência.

Uma dos objetivos é, futuramente, vender os experimentos à indústria farmacêutica e assim garantir que a humanidade tenha acesso aos benefícios da fauna e flora pantaneiras. A indústria internacional, aliás, já abriu os olhos para a riqueza do Pantanal sul-mato-grossense, tanto que recebe o veneno de cobras para dar sequencia a estudos. O produto é extraído diretamente no biotério da UCDB.

Serpentes - Dentro do biotério, um dos locais mais impressionantes é o serpentário. O barulho das serpentes acondicionadas nas caixas é de causar arrepios aos visitantes. Elas chegaram ali vindas pelas mãos da Polícia Militar Ambiental (PMA), Corpo de Bombeiros e Forças Armadas. "Hoje existe uma dificuldade para a soltura destes animais na natureza, porque os donos de áreas verdes normalmente não querem serpentes por perto.

Por isso, após a captura, a maioria vem diretamente para o biotério da UCDB que é uma referência", diz a gestora do biotério Paula Helena Santa Rita que é bióloga, médica veterinária e doutoranda em ciências ambientas e sustentabilidade agropecuária. Quando chegam, as serpentes recebem um chip e passam pelo período de quarentena, antes de serem levadas para a sala definitiva. Dentro das caixas, elas recebem água e alimentação.

Cascavéis, Jararacas, Corais, são periodicamente retiradas das caixas para a coleta do veneno utilizado nas pesquisas dos laboratórios da UCDB.  Alguns venenos já estão correndo o mundo, o da Jararaca Caiçara Bothrops é um deles. No veneno dessa serpente, foi descoberto um componente que tem reduzido em 100% o tumor de mama em ratazanas. A pesquisa está sendo realizada pela indústria chinesa. O veneno da cobra é recolhido pela própria Paula Helena que o coloca em um equipamento chamado liofilizador, onde o material é transformado em pó.

Feito isso, o veneno em pó é acondicionado em garrafinhas de vidro e segue viagem para a China. A gestora explica que não se trata de comércio do veneno, pois a universidade não tem fins lucrativos, mas sim de uma parceria estabelecida entre a UCDB e a indústria  chinesa. "O mundo está de olho nas cobras brasileiras (...) Aqui no serpentário temos que manter a condição sanitária deste animal para que o veneno não mude ou fique mais próximo possível do original, é isso que garante o sucesso das pesquisas", afirma.

INCT - Uma esperança para garantir o avanço das pesquisas em solo sul-mato-grossense é a implantação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) cuja solicitação já foi feita ao Ministério da Ciência e Tecnologia, ao CNPq e à Fundect.

Se aprovado, será o primeiro de Mato Grosso do Sul. O órgão vai garantir dinheiro para as pesquisas, vindo do poder público.  "Com o dinheiro do INCT, será possível criar um laboratório aberto a toda comunidade. Vai ser possível investir em estrutura e treinamento de pessoal para a gente ampliar o trabalho. Dinheiro e gente são fundamentais para a ciência. Gente ainda é mais importante", considera. A viabilização da proposta, contudo, depende agora do poder público local.

*Diariodigital

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