
Um relatório minucioso do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul, confirmou partes cruciais da delação premiada de executivos da Aegea. A investigação aponta que o grupo, controlador da Águas de Guariroba, utilizou contratos fictícios e a compra de uma Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) "fantasma" para lavar R$ 4,5 milhões. Segundo a polícia, os valores tiveram destinos diversos, incluindo R$ 1,4 milhão para a campanha de Edson Giroto (MDB) à prefeitura de Campo Grande em 2012.
O ponto mais emblemático do relatório é a suposta compra de uma ETE em Dourados pela Águas de Guariroba em 2012. Os policiais afirmam que a estrutura nunca foi localizada e que a empresa sequer atuava naquela cidade na época. Documentos apreendidos pela Polícia Federal revelam que a Aegea chegou a preparar uma resposta sobre a localização da estação, mas suprimiu o trecho para evitar "outra frente de problemas". Para os investigadores, o negócio foi uma simulação para transferir recursos à Proteco, empresa de João Amorim, às vésperas do pleito eleitoral.
Além da "estação fantasma", o Dracco identificou que a concessionária pagava aluguéis de máquinas e equipamentos à Proteco sem qualquer comprovação de serviço. Não foram encontrados recibos, fotos ou relatórios de movimentação do maquinário, levando a polícia a concluir que os contratos eram "forjados" para servir de fachada a repasses escusos. Em depoimento, o próprio João Amorim admitiu não possuir cópias dos contratos de locação que justificariam as milionárias transferências recebidas entre 2011 e 2015.
A investigação também sugere novos desdobramentos. O relatório pede a abertura de um inquérito específico para investigar a compra de R$ 326 mil em livros jurídicos do advogado André Puccinelli Júnior pela Aegea entre 2013 e 2014. A transação ocorreu às vésperas de mais uma eleição, e parte das obras teria sido entregue a um servidor do governo estadual. A delação que originou o caso revela que o esquema em Mato Grosso do Sul teria movimentado cerca de R$ 30 milhões para formar caixa político, com Amorim retendo 25% dos valores apenas pela "comodidade" de emprestar notas fiscais de suas empresas.
Diante das provas colhidas, a Polícia Civil pediu o indiciamento de João Amorim e de executivos da Aegea por lavagem de dinheiro. O relatório agora segue para o Ministério Público, que decidirá se oferece denúncia formal à Justiça. O caso expõe a profundidade das relações entre concessionárias de serviços públicos e o financiamento de campanhas políticas no Estado, onde o "lucro" do saneamento básico teria sido desviado para alimentar um intrincado bunker de corrupção.
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