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Bloqueado no Brasil, Polymarket dá 59% a Flávio e 43% a Lula na disputa presidencial

Mercado internacional de previsão movimenta milhões de dólares na eleição brasileira e apresenta cenário diferente das pesquisas tradicionais; plataforma foi bloqueada no País por determinação do Ministério da Fazenda

03/10/2026 às 11h28
Por: Tribuna Popular Fonte: Álvaro Pereira Filho
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Plataforma que acertou eleição de Donald Trump aponta favortismo de Flávio Bolsonaro no 1º turno das eleições no Brasil. (Imagem: Reprodução Polymarket)
Plataforma que acertou eleição de Donald Trump aponta favortismo de Flávio Bolsonaro no 1º turno das eleições no Brasil. (Imagem: Reprodução Polymarket)

A um dia do primeiro turno das eleições presidenciais, um indicador pouco conhecido por grande parte dos brasileiros apresenta um retrato diferente daquele mostrado pelas pesquisas eleitorais. Na manhã deste sábado (3), consulta realizada pelo Jornal Tribuna Popular ao Polymarket mostrava Flávio Bolsonaro com 59% no mercado sobre quem vencerá a eleição presidencial brasileira, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva aparecia com 43%.

Os números variam continuamente conforme usuários compram e vendem contratos. Em consulta posterior à página pública da plataforma, Flávio aparecia com 58% e Lula com 43%. O mercado relacionado ao vencedor da eleição brasileira já acumulava aproximadamente US$ 162 milhões em volume negociado.

É fundamental, porém, entender o que esses percentuais representam. 59% no Polymarket não significa que 59% dos brasileiros pretendem votar em Flávio Bolsonaro. O número representa o preço atribuído pelo mercado à possibilidade de determinado candidato terminar a eleição como vencedor. É, portanto, uma probabilidade produzida pelas negociações entre os participantes, e não uma pesquisa realizada com uma amostra do eleitorado. 

A diferença fica ainda mais clara quando se observa outro mercado disponível na própria plataforma. Neste sábado, o Polymarket atribuía a Lula cerca de 76% no contrato sobre quem ficará em primeiro lugar no primeiro turno, contra aproximadamente 25% para Flávio. Ao mesmo tempo, no mercado que considera o vencedor final da eleição, após eventual segundo turno, Flávio aparecia à frente.

Ou seja, os próprios mercados estão respondendo a perguntas diferentes. Um contrato procura antecipar quem terminará a votação deste domingo na primeira posição. Outro tenta precificar quem será efetivamente eleito presidente ao término de todo o processo eleitoral.

Esse detalhe é importante porque impede uma interpretação equivocada dos números. O Polymarket não está dizendo que Flávio terá 59% dos votos neste domingo. O que o mercado mostra é que, naquele momento, compradores e vendedores estavam dispostos a negociar contratos a preços compatíveis com uma probabilidade maior de vitória final de Flávio do que de Lula.

Pesquisas eleitorais tradicionais apresentavam cenário diferente na véspera da votação. Levantamento CNT/MDA divulgado neste sábado mostrou Lula com 43,1% das intenções de voto no primeiro turno e Flávio com 38%. Nos votos válidos, os percentuais eram de 47,8% para Lula e 42,1% para Flávio. A pesquisa ouviu 2.007 pessoas entre 30 de setembro e 2 de outubro.

Uma pesquisa e um mercado de previsão, portanto, medem coisas distintas. A pesquisa pergunta ao eleitor em quem ele pretende votar. O mercado pergunta, indiretamente e por meio de dinheiro colocado em risco pelos participantes, quem eles acreditam que terminará vencedor.

Essa característica é justamente o que tornou os mercados de previsão uma ferramenta acompanhada por investidores, economistas, jornalistas e analistas políticos em vários países.

No Polymarket, contratos são comprados e vendidos entre os próprios usuários. Se determinada possibilidade é negociada a US$ 0,60, por exemplo, a plataforma apresenta esse preço como uma probabilidade próxima de 60%. Conforme chegam novas pesquisas, notícias, debates, informações econômicas e acontecimentos de campanha, participantes podem mudar suas posições e o preço se altera em tempo real. 

A lógica é diferente de simplesmente perguntar a uma pessoa quem ela prefere. Um participante pode votar em determinado candidato e, ao mesmo tempo, colocar dinheiro na vitória do adversário caso acredite que este tenha maior possibilidade de vencer. Em teoria, o incentivo financeiro estimula o participante a separar preferência pessoal da avaliação sobre o resultado mais provável.

Foi esse mecanismo que ganhou enorme visibilidade na eleição presidencial dos Estados Unidos em 2024.

No dia da votação entre Donald Trump e Kamala Harris, enquanto modelos eleitorais apontavam uma disputa muito equilibrada, Trump estava próximo de 60% no Polymarket. Em 5 de novembro daquele ano, a própria plataforma registrava 60,3% para sua vitória. Trump acabou vencendo a eleição. O mercado presidencial daquele ano movimentou cerca de US$ 3,7 bilhões. 

O episódio consolidou a notoriedade internacional do Polymarket, principalmente porque o mercado manteve Trump acima de Harris em boa parte da reta final mesmo em momentos nos quais pesquisas e modelos davam uma disputa praticamente equilibrada.

Isso, entretanto, não permite afirmar que o Polymarket seja infalível ou que seja sempre “mais preciso que qualquer pesquisa”.

Há pesquisas acadêmicas que encontraram desempenho bastante competitivo dos mercados de previsão. Um estudo publicado no International Journal of Forecasting, analisando eleições presidenciais norte-americanas entre 1988 e 2004, concluiu que os mercados do Iowa Electronic Markets tiveram desempenho superior às pesquisas brutas especialmente quando a previsão era feita com maior antecedência. 

Outros estudos chegaram a conclusões mais cautelosas. Pesquisadores publicados pela Public Opinion Quarterly sustentaram que, quando pesquisas são transformadas adequadamente em previsões eleitorais, elas podem superar preços de mercados de previsão. Outro levantamento histórico concluiu que, nas eleições mais recentes estudadas, parte significativa das oscilações dos mercados simplesmente acompanhava as próprias pesquisas.

Em estudo sobre os mercados políticos da eleição norte-americana de 2024, pesquisadores analisaram aproximadamente 2.200 contratos negociados em plataformas como Polymarket, Kalshi, PredictIt e Iowa Electronic Markets. Segundo o trabalho, 86% dos mercados ativamente negociados tiveram desempenho superior a uma escolha aleatória e apresentaram, em geral, boa calibração, embora os pesquisadores também tenham identificado distorções e alertado que parte da elevada taxa de acerto estava relacionada ao tipo de contrato negociado. 

A própria Polymarket informa atualmente uma taxa de acerto de 98,6% quatro horas antes da resolução de seus mercados. Esse dado, contudo, é calculado pela própria empresa e engloba mercados de diferentes assuntos, não apenas eleições. Além disso, previsões feitas poucas horas antes de um acontecimento naturalmente contam com muito mais informações disponíveis.

Por isso, o valor jornalístico do Polymarket está menos em tratá-lo como uma “pesquisa secreta” capaz de antecipar o resultado e mais em enxergá-lo como um indicador adicional de expectativas.

E existe outra diferença importante: uma pesquisa procura representar estatisticamente a população brasileira. O Polymarket representa as decisões de quem participa daquele mercado, inclusive investidores estrangeiros. Não existe exigência para que seus participantes reproduzam a composição regional, econômica, etária ou social do eleitorado brasileiro.

Também é possível que grandes apostas provoquem movimentos de preço, sobretudo em mercados com menor liquidez. Dessa forma, os percentuais devem ser interpretados como preços de mercado e não como votos já conquistados.

No caso brasileiro, há ainda uma particularidade: o acesso às plataformas de mercados preditivos foi bloqueado no País.

Ao contrário do que chegou a circular nas redes sociais, o bloqueio específico do Polymarket em 2026 não nasceu de uma liminar solicitada pelo PT nem de uma decisão individual do TSE contra a empresa.

Em 24 de abril, o Ministério da Fazenda determinou o bloqueio de 27 plataformas de mercados preditivos. A Anatel notificou aproximadamente 19 mil empresas de telecomunicações para interromper o acesso aos respectivos domínios. Polymarket e Kalshi estavam entre as plataformas atingidas. 

A decisão se baseou no entendimento do Ministério da Fazenda de que contratos envolvendo política, entretenimento e outros acontecimentos não se enquadravam nas modalidades de apostas autorizadas pela legislação brasileira. Paralelamente, o Conselho Monetário Nacional aprovou a Resolução nº 5.298, restringindo o uso da estrutura de derivativos para contratos vinculados a eventos dessa natureza. 

O TSE, porém, tem participação anterior na discussão jurídica. Em setembro de 2024, a Corte alterou a Resolução nº 23.735 para explicitar que organizações comerciais que ofereçam apostas relacionadas a candidatos ou ao resultado das eleições podem incorrer em ilícito eleitoral. A regra foi aprovada pelo plenário do tribunal e permanece no arcabouço eleitoral. 

Portanto, existem duas frentes que não devem ser confundidas: a Justiça Eleitoral estabeleceu regras contra apostas vinculadas ao resultado das eleições; já o bloqueio nacional do Polymarket em abril de 2026 foi operacionalizado pela Anatel a partir de determinação do Ministério da Fazenda, dentro de uma ofensiva contra mercados preditivos considerados irregulares.

A situação regulatória tornou-se ainda mais restritiva em setembro deste ano, quando a Medida Provisória nº 1.394 proibiu em todo o território nacional a exploração, oferta, intermediação e publicidade de apostas de quota fixa, inclusive quando oferecidas por empresas sediadas no exterior a pessoas localizadas no Brasil.

Com o acesso convencional à plataforma bloqueado no País, o Jornal Tribuna Popular conseguiu consultar o Polymarket por meio de uma conexão VPN e registrou, na manhã deste sábado, o cenário apresentado aos usuários internacionais: 59% para Flávio Bolsonaro e 43% para Lula no mercado sobre quem será o vencedor final da eleição presidencial.

A informação não antecipa o resultado das urnas e tampouco substitui pesquisas eleitorais. Mas revela como um mercado que movimenta dinheiro real e reúne participantes de diferentes países estava precificando a eleição brasileira às vésperas da votação.

É justamente aí que está a relevância do Polymarket. Enquanto pesquisas procuram fotografar o que os eleitores dizem que farão, mercados de previsão tentam condensar em um único preço as expectativas dos participantes sobre o que efetivamente acontecerá.

Neste domingo, serão as urnas, e não os mercados ou as pesquisas, que mostrarão qual dessas leituras estava mais próxima da decisão dos brasileiros.

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