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Opinião: Quarenta e quatro anos não pedem licença

Quando o novo confunde barulho com legado

07/04/2026 às 07h00
Por: Tribuna Popular Fonte: Álvaro Pereira FIlho
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Capa da primeira edição do Jornal Tribuna Popular, de 26 de abril de 1982. (Foto: Arquivo Tribuna Popular)
Capa da primeira edição do Jornal Tribuna Popular, de 26 de abril de 1982. (Foto: Arquivo Tribuna Popular)

Tem uma nova safra de jornalistas em MS oriundos da internet. Jovens. Ágeis. Bons escritores. E com um ego que não cabe na fibra ótica.

A internet democratizou a palavra e isso é inegável. Qualquer pessoa com um celular, uma pauta decente e paciência para construir audiência pode se tornar referência num nicho. Acontece todos os dias. Em todo o mundo. O mercado abriu as portas e quem tem talento entra. Ponto.

O problema não é a porta aberta. É a postura de quem entra por ela.

Tem gente que chega, aprende, cresce e constrói algo sólido. E tem gente que confunde quatro anos de likes com mais de quarenta anos de estrada. São coisas diferentes. Muito diferentes.

Meu pai fundou esse jornal em 1982. Época do clichê tipográfico e rolo de filme para fotos. Os fotógrafos que trabalhavam nessa época não tinham segunda chance. Saíam para cobrir um fato com um número limitado de rolos no equipamento, registravam o momento confiando inteiramente na própria técnica e voltavam sem saber se tinham feito um bom material. Não havia tela para revisar. Não havia deletar e repetir. Havia experiência, preparo e a pressão silenciosa de quem sabe que o erro não tem conserto. Sem curtida, sem compartilhamento, sem algoritmo empurrando o conteúdo para frente.

E funcionava mesmo assim. Chamavam de credibilidade.

Aí aparece um jornalista. Novo. Talentoso, diga-se de passagem. Produz material bem escrito, tem audiência, tem relevância no seu espaço. E se sente incomodado porque o Jornal Tribuna Popular vinha republicando suas matérias.

Pausa.

Se republicou sem citar a fonte, o recado é legítimo. Plágio não tem padrinho e não tem história que justifique. Crédito é obrigação, não generosidade. Nesse caso a reclamação procede e acabou o assunto.

Mas e se citou a fonte?

Republicar com crédito não é roubo. Nunca foi. É a Globo usando material da Reuters com a logomarca no canto da tela. É a CNN citando o Washington Post no meio do noticiário. É o jornalismo funcionando como sempre funcionou antes de todo mundo virar uma marca pessoal com link na bio do Instagram. Circulação de conteúdo com crédito é o mecanismo mais básico da imprensa. Não é gentileza. É o modelo.

Então qual é o problema real?

O endereço da reclamação.

Essa pessoa foi questionar um veículo com quarenta e quatro anos de história com a arrogância de quem ainda não tem história nenhuma para contar.

Isso acontece porque a internet comprimiu o tempo de um jeito cruel. Quatro anos de trabalho consistente na rede podem gerar audiência maior do que décadas de jornalismo regional. A internet não tem memória e não respeita cronologia. Para quem consome notícia pela tela do celular, todo mundo começa do zero toda manhã.

O problema é quando o profissional passa a acreditar que isso é verdade.

Quando confunde quantidade de leitores com autoridade. Quando confunde número de acessos com credibilidade. Quando acha que a régua do seu sucesso pode ser aplicada em cima de trajetórias que existiam antes da internet ser o que é hoje. Isso não é autoconfiança. É analfabetismo histórico com boa escrita.

Humildade não é virtude de santo. É ferramenta de trabalho. É o que te impede de bater à porta de um jornal com quarenta e quatro anos de história e tratá-lo como se fosse um portal qualquer que violou sua marca pessoal.

Desde 1982, esse jornal atravessou hiperinflação, plano econômico que mudava o nome do dinheiro de ano em ano e cada onda que chegou com a promessa de enterrar o jornalismo impresso. E está de pé.

Daqui a quarenta e quatro anos, quando esse jornalista estiver celebrando a própria história, se a audiência não tiver migrado para outra plataforma, vai entender o que significa construir algo que dura.

Por enquanto, que aproveite os likes.

Pois credibilidade não se mede em seguidores. Não aparece em relatório de alcance. Não se compra com quatro anos de internet.

Se constrói com tempo. E o tempo, esse sim, não mente.

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